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A mitologia promete uma feiticeira em fúria, e Bor entrega o minuto anterior: o do golpe ainda sendo compreendido. É esse intervalo que prende o olhar. Fique nele um pouco antes de seguir.
Ela não está furiosa. Está esgotada. A mulher que Paulus Bor pintou por volta de 1640 não é o monstro da mitologia grega, é alguém que acaba de compreender que foi abandonada.
Medeia, a feiticeira da Cólquida que ajudou Jasão a conquistar o Velocino de Ouro e fugiu com ele para a Grécia, segura o cetro real que prometia ser seu e olha para o lado, os olhos baixos, como quem ainda não acredita no que aprendeu.
I
O que você vê
A tela é vertical, com cerca de 155 por 112 centímetros, e está dominada por uma figura feminina sentada no chão ou numa superfície baixa, quase como se o peso da cena a tivesse puxado para baixo. A mulher ocupa o centro-esquerda da composição, com os ombros levemente encurvados e a cabeça apoiada na mão direita, num gesto universal de abatimento.
Ela veste um longo manto de seda azul-esverdeado que se espalha pelo chão em pregas amplas e luminosas. Sobre ele, um tecido dourado bordado, uma roupa de cerimônia, de alguém que devia estar numa posição de poder. A blusa branca escorrega ligeiramente dos ombros, revelando o colo e os braços. No cabelo castanho, uma pequena flor.
Na mão esquerda, ela segura um cetro dourado com a borla pendente, o símbolo de um trono que não se materializou. O gesto é mole, sem energia: ela não o brandiu nem o arremessou; simplesmente o mantém, sem saber ainda o que fazer com ele.
Ao fundo, à esquerda, uma escultura de pedra, uma figura feminina enfeitada de guirlandas, observa a cena sem interferir. À direita, uma coluna-candelabro esculpida com figuras humanas e um alto pedestal de pedra acinzentada. Entre os elementos arquitetônicos, um escudo ou relevo com o perfil de uma cabeça feminina. O ambiente tem a quietude fria de um palácio vazio.
A luz cai sobre o rosto, o colo e as mãos de Medeia. O restante se perde em penumbra dourada. Paulus Bor não pintou o momento da vingança, pintou o momento anterior, quando ainda havia a possibilidade de outra escolha.
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"A pintura holandesa do século XVII não se interessava apenas pelo exterior das coisas, mas pela vida interior que as coisas revelam." Arnold Houbraken, *De groote schouburgh*, 1718.
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II
A história por trás
Paulus Bor nasceu em Amersfoort, nos Países Baixos, por volta de 1601, e passou vários anos em Roma integrando o círculo dos Bentvueghels, a irmandade informal de artistas holandeses e flamengos que viviam na cidade e desenvolviam ali uma linguagem pictórica própria, misturando o classicismo italiano com a sensibilidade do Norte.
Foi nesse ambiente que Bor formou seu estilo singular: figuras de grande escala, cores saturadas mas de tonalidade fria, e um interesse particular pelos estados emocionais silenciosos.
De volta à Holanda, Bor estabeleceu-se em Amersfoort e trabalhou como pintor independente. Ficou fora dos grandes centros, Amsterdã, Delft, Haarlem, e isso explica em parte por que sua obra nunca alcançou a fama de contemporâneos como Rembrandt ou Vermeer. Pintou temas religiosos, mitológicos e alegóricos com uma voz particular: melancólica, contida, de uma elegância quase estranha ao seu tempo.
"A Medeia Desiludida" é uma das obras mais conhecidas de sua produção madura. O tema de Medeia, a mulher estrangeira que sacrificou tudo por Jasão e foi depois preterida por uma princesa grega, oferecia a Bor o que ele buscava: um momento de interioridade dramática antes da explosão. O Met recebeu a obra como doação de Ben Heller em 1972.
A identidade do modelo que posou para Bor não é conhecida. O que permanece é o rosto: nem acusador, nem resignado. Apenas alguém que ainda está processando uma perda.
III
Por que importa
Bor fez uma escolha que poucos pintores fariam: retirou de Medeia a violência e a crueldade que a tornaram famosa, e devolveu a ela a humanidade que a história tendeu a apagar. Não há fogo, não há filhos mortos, não há vengeança. Há uma mulher sentada no chão, segurando um cetro inútil, com o olhar de quem entendeu que foi trocada.
Esse momento, o momento de antes, é o mais difícil de representar e o mais próximo de qualquer pessoa que já confiou em alguém e saiu com as mãos vazias. Bor não precisou de sangue para fazer a cena doer. Bastou a postura, a luz, e o cetro que ela ainda não larga.
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Olhe com calma.
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