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Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 099

Judite Decapitando Holofernes

Artemisia Gentileschi · c. 1620 · Óleo sobre tela

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Judite Decapitando Holofernes

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A cena se passa dentro de uma tenda, e a tela quase não mostra a tenda. Há um lençol branco amassado, um colchão fundo e um homem grande caído de costas sobre ele. Duas mulheres se debruçam com o peso inteiro do tronco, as mangas arregaçadas até o cotovelo. A luz vem de um ponto só, de lado, e escolhe muito bem o que iluminar: os braços delas, a lâmina, o pescoço dele.

Repare nos braços. São seis no centro do quadro, os dois dela, os dois da criada e os dois do general, cruzados num nó que qualquer pessoa reconhece de imediato: alguém está sendo segurado à força. A criada não observa de longe, prende os ombros do homem contra o colchão com o corpo todo. Ele desperta no meio do gesto, empurra o rosto dela com a mão aberta e não consegue nada.

A obra chama-se Judite Decapitando Holofernes, pintada por Artemisia Gentileschi por volta de 1620 e hoje na Galeria Uffizi, em Florença. É a versão mais crua de um episódio bíblico que dezenas de pintores já haviam tratado antes. Nenhum deles tinha pintado desse jeito, e a diferença está num detalhe que quase ninguém nota de primeira: o sangue.

I

O que você vê

A composição é um X apertado, montado quase todo na metade de baixo da tela. Os corpos formam duas diagonais que se cruzam exatamente onde a lâmina encontra o pescoço, e o fundo é uma escuridão sem informação nenhuma: nada de acampamento, nada de paisagem, nada de mobília. O cenário foi tirado do caminho de propósito, para que você não tivesse para onde desviar o olho.

O rosto de Judite é o detalhe mais estranho da cena. Ela não grita, não fecha os olhos, não vira a cara. A testa está franzida como a de quem executa uma tarefa pesada e conhece o próprio ofício, e os dois braços trabalham em direções opostas: o esquerdo empurra a cabeça do homem para baixo, o direito puxa a arma em sentido contrário. É a mecânica exata de quem já pensou em como aquilo se faz.

Agora o sangue. Ele não escorre nem pinga: sai em jatos, três arcos finos que sobem do pescoço e caem em curva sobre o lençol branco, com o mesmo desenho que um líquido lançado com força faz no ar. As gotas menores se espalham no tecido em salpicos irregulares. Cada arco tem começo, altura e queda, como uma trajetória calculada num papel antes de virar tinta.

Os outros detalhes trabalham a favor. O vestido azul se enche de dobras duras, quase metálicas, e uma mancha vermelha já toma o punho da manga. No braço esquerdo de Judite há um bracelete de ouro com cenas minúsculas gravadas, onde se reconhece a figura de uma deusa caçadora com o arco na mão. E a criada, jovem e forte, não é figurante: sem o peso dela sobre os ombros do general, a cena inteira desmontaria.

Quase todo pintor antes dela transformou o episódio em pose: uma heroína bonita, de braço esticado, a cabeça já cortada na mão e nenhuma gota fora do lugar. Artemisia pintou o minuto anterior, o do esforço, o das duas mulheres empurrando um homem que ainda reage. Ela trocou o troféu pelo trabalho.

 
◆︎◆︎◆︎
 

II

A história por trás

Artemisia nasceu em Roma, em 1593, filha de um pintor, e aprendeu o ofício moendo pigmento no ateliê do pai. Naquele mundo, mulher não entrava em academia, não estudava o corpo humano ao vivo, não assinava contrato sozinha. Aos dezessete anos ela já pintava melhor do que a maior parte dos homens que frequentavam a mesma oficina, e o pai contratou um colega para lhe ensinar perspectiva.

Esse colega a estuprou em 1611. O pai levou o caso ao tribunal de Roma no ano seguinte e o processo durou sete meses. Para checar se a moça de dezoito anos mentia, o tribunal apertou cordas nos dedos dela enquanto ela repetia o depoimento diante do agressor, no procedimento que a época chamava de prova da verdade. Ela manteve cada palavra, e a frase que repetiu ficou registrada nos autos: é verdade, é verdade, é verdade.

O agressor foi condenado e nunca cumpriu a pena. Artemisia deixou Roma, casou e foi viver em Florença, onde aconteceu a virada da carreira: virou pintora da corte dos Medici, foi a primeira mulher aceita na Academia de Desenho da cidade e passou a fechar contratos e cobrar preços em nome próprio. Conviveu com a elite intelectual florentina e trocou cartas com gente que estudava o movimento dos corpos no céu.

Entre esses conhecidos estava Galileu, que naqueles mesmos anos descrevia em Florença a curva que um corpo lançado descreve no ar. Historiadores da arte já mostraram que os arcos de sangue da tela seguem exatamente esse desenho, e não o esguicho vertical que os pintores usavam por convenção. É, muito provavelmente, o primeiro jato de sangue da pintura europeia traçado segundo a física, e não segundo o costume do ateliê.

Existem duas versões da cena pela mesma mão. A primeira, de cerca de 1612, está em Nápoles e é menor, mais contida na luz. A segunda, maior e mais escura, é a que chegou aos Medici por volta de 1620 e hoje ocupa uma sala da Uffizi. Conta-se que a corte a achou insuportável de olhar e a mandou para um canto discreto do palácio. Ficou guardada por séculos, quase esquecida, até o século vinte devolver a pintora ao lugar dela.

 
◆︎◆︎◆︎
 

III

Por que importa

A tela importa primeiro porque quebra uma convenção de duzentos anos. Judite era, na pintura europeia, um pretexto elegante: uma mulher bonita, bem vestida, posando com uma cabeça na mão e o rosto sereno, como quem segura uma fruta no mercado. Artemisia devolveu peso ao episódio. Na tela dela, o gesto dá trabalho, exige duas pessoas, suja o lençol, encharca a manga e leva tempo.

Importa também pelo lugar de onde a cena é vista. O ponto de vista não é o de quem assiste de longe, é o de quem está ao lado do colchão, na altura dos braços, perto demais para fingir distância. Muitos estudiosos reconhecem no rosto de Judite os traços dos autorretratos da pintora, e no rosto do general os do homem que ela levou ao tribunal. Provado, não está. Sugerido, está em cada detalhe.

Importa ainda pela criada. Em quase todas as versões pintadas por homens, ela é uma velha que espera de lado com um saco na mão, sem participar de nada. Aqui é uma jovem que segura, empurra e divide o risco de perto. As duas mulheres agem juntas e nenhuma delas parece pedir licença a ninguém. Poucos quadros do século dezessete colocam duas mulheres cooperando com essa determinação.

E importa pelo que a pintura se recusa a ser. Não é vingança encenada, é competência: mãos que sabem onde apoiar, braços que sabem em que direção puxar, tecido que se amassa no lugar certo. Diante da tela, siga a ordem que a luz propõe: primeiro os punhos, depois a lâmina, depois os três arcos vermelhos no ar. E, por último, o rosto dela, que não desvia de nada.

Olhe com calma.

 
 

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ADo esguicho vertical que era convenção nos ateliês da época
BDa curva que um corpo lançado descreve no ar, estudada por Galileu
CDa dobra do lençol amassado sob o corpo
DDa lâmina curva usada por Judite no golpe

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