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Há pinturas feitas pra parede e há esta, feita pra desenrolar nas mãos, palmo a palmo. A subida até o mercado na névoa acontece no seu ritmo de leitura. Suba devagar.
Esta pintura não tem um centro. Tem um caminho. O olho entra pela base da composição, sobe por pontes, atravessa pátios, contorna montanhas cobertas de névoa e chega, no topo, a um mercado que mal se distingue entre as pedras e a névoa.
É uma pintura de rolo suspenso, feita para ser desenrolada devagar, como se ler um texto, e o seu tema não é uma cena, mas uma jornada.
I
O que você vê
O rolo é vertical, pintado a tinta preta sobre seda, e mede cerca de 115 por 60 centímetros. A seda envelhecida tem uma cor mel-dourada que cria um fundo quente para as linhas negras, ora espessas e firmes nas rochas, ora delicadas e quase invisíveis na névoa que sobe entre os picos.
Na base da composição, à esquerda, um erudito recebe um visitante no pátio de sua residência, rodeada de árvores de ramos retorcidos. Mais ao centro, numa ponte de madeira, duas figuras se cumprimentam ao encontrar um terceiro viajante. A ponte liga o mundo doméstico ao mundo mais amplo.
Subindo pela composição, os picos de pedra ficam mais abruptos e imponentes, com formações rochosas representadas em planos achatados e texturizados por traços horizontais, a técnica chinesa e coreana das "rugas de cânhamo", que imita a estratificação da rocha. Entre as montanhas, pavilhões e habitações se encaixam nos terraços naturais, quase como se tivessem crescido ali.
À esquerda, a meio caminho, um vislumbre de rio com barcos minúsculos e uma construção maior que pode ser um templo ou um forte.
No topo, à direita, rochas gigantescas com uma abertura em arco natural formam um portal para o mercado que dá título à obra: figuras pequenas, barcas no rio, a entrada de uma cidade. Tudo desaparece na névoa branca antes de se tornar completamente legível.
A escala entre o ser humano e a natureza é proposital: as figuras são minúsculas diante das montanhas. Não porque sejam insignificantes, mas porque é assim que a tradição pictórica coreana e chinesa enxerga a relação entre o estudioso e o mundo natural, de participação humilde, não de domínio.
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"A pintura de paisagem não é um retrato da natureza. É um estado de espírito expresso através da natureza." Su Shi (Su Dongpo), poeta e ensaísta da dinastia Song, século XI.
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II
A história por trás
Esta pintura foi realizada na Coreia durante a dinastia Joseon, provavelmente no início do século XVI, um período de florescimento cultural marcado por um profundo interesse no confucionismo e na tradição literária chinesa.
A palavra coreana no título, 山市晴嵐 (*sansi cheongnam*), refere-se a um dos "oito cenários clássicos de Xiaoxiang", uma série de temas paisagísticos codificados que pintores e poetas chineses e coreanos exploraram por séculos como exercícios de contemplação e técnica.
O autor desta obra é desconhecido. A identidade do pintor se perdeu, assim como a história de sua encomenda e de seus primeiros proprietários.
O que os especialistas sabem é que a obra foi durante muito tempo classificada como pintura chinesa da dinastia Northern Song, do século XII, tal é a fidelidade com que o pintor domina os modelos visuais do continente.
A reclassificação como obra coreana Joseon veio de uma análise mais detalhada dos materiais e das técnicas características da escola coreana da época.
Em 2015, a obra entrou para o acervo do Cleveland Museum of Art por doação da coleção de George Gund III, uma das mais importantes coleções privadas de arte asiática dos Estados Unidos. Chegou acompanhada de um novo nome, de uma nova data e de uma pergunta que permanece aberta: quem foi o erudito que subiu esta montanha?
III
Por que importa
Olhar para esta pintura exige uma desaceleração real. Não porque seja difícil, pelo contrário: as linhas são claras, a composição é generosa. Mas porque ela foi feita para um tempo diferente de leitura. O rolo suspenso era desenrolado gradualmente, cena por cena, como quem faz uma caminhada em câmera lenta.
A névoa que sobe entre os picos não é imprecisão técnica. É o elemento que diz: nem tudo precisa ser visto de uma vez. O mercado no topo da montanha existe, mas para chegar até ele, é preciso fazer a jornada inteira. Quinhentos anos depois, essa lógica não parece ter envelhecido.
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Olhe com calma.
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