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Uma jovem mulher olha diretamente para o observador. Na cabeça, um turbante de veludo dourado-azeite. Sobre os ombros, um manto azul e dourado com bordados vegetais, e por cima um xale de veludo vermelho escarlate.
Sobre uma mesa de madeira esculpida, um livro aberto, e a mão dela pousa sobre as páginas. É 1838, e Friedrich Amerling, o retratista mais celebrado de Viena, está inventando um Oriente que nunca existiu.
I
O que você vê
A tela tem proporção vertical, próxima ao quadrado, com cerca de 88 por 71 centímetros. O fundo é uma gradação de ocre-dourado escuro que clareia levemente ao centro, criando um halo luminoso em torno da figura.
A mulher está sentada ou levemente inclinada sobre a mesa, com o corpo voltado para a esquerda, mas o rosto girado de frente para o observador. O olhar é direto, calmo e inteligente, não há timidez nem provocação, apenas presença. A pele é clara, as bochechas levemente rosadas, os lábios fechados. Os cabelos escuros caem em cachos soltos dos dois lados do rosto.
O turbante de veludo dourado-azeite cobre a testa e domina o topo da composição. Abaixo, o manto azul-acinzentado com estampas florais douradas cobre os ombros e o corpo, é um tecido que Amerling pintou com cuidado minucioso, cada motivo botânico claramente distinguível.
Sobre ele, o xale de veludo vermelho-escarlate cria o acento quente da composição, pousando de lado sobre o ombro direito e caindo sobre o braço.
A mão esquerda repousa aberta sobre as páginas do livro. As páginas têm escritas visíveis, talvez em árabe ou numa caligrafia decorativa, o detalhe é suficientemente sugestivo para criar atmosfera sem precisar ser legível.
A luz vem de cima e à esquerda, modelando o rosto com suavidade e fazendo os tecidos brilharem. A técnica é lisa, quase fotográfica nos pontos de iluminação direta, revelando o domínio técnico que tornou Amerling tão cobiçado.
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"Pode-se ver na retratação sensível e bela de Amerling por que ele era tão conhecido e admirado pelos seus retratos." Cleveland Museum of Art, ficha da obra, 1991.
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II
A história por trás
Friedrich von Amerling nasceu em Viena em 1803 e estudou nas melhores academias europeias, Viena, Praga, Londres, Paris e Roma. Em Londres, foi influenciado por Thomas Lawrence, o retratista da aristocracia inglesa, cujo traço fluido e capacidade de capturar personalidade o impressionou profundamente. De volta a Viena, Amerling rapidamente se tornou o retratista preferido da corte imperial e da alta burguesia austríaca.
Na Viena do período Biedermeier, aqueles anos entre o Congresso de Viena (1815) e as revoluções de 1848, marcados por uma cultura de refinamento doméstico e gosto pelo conforto burguês, Amerling era o nome para quem queria eternizar-se com elegância. Pintou o imperador Francisco I da Áustria, a família imperial e dezenas de famílias nobres e ricas.
Mas pintou também obras de fantasia, como esta.
O orientalismo, o fascínio europeu pelo "Oriente" imaginado, feito de turbantes, sedas e livros de caligrafia árabe, era uma corrente poderosa na arte do século XIX, alimentada por viagens ao norte da África e ao Mediterrâneo Oriental, mas também por uma projeção de exotismo que dizia mais sobre o desejo europeu de alteridade do que sobre qualquer realidade.
A modelo desta tela não veio do Oriente: vestiu um traje turco num estúdio de Viena.
Amerling continuou a pintar até uma idade avançada, falecendo em 1887 aos 84 anos. O Cleveland Museum of Art adquiriu a obra em 1991.
III
Por que importa
Esta pintura é bela e, ao mesmo tempo, revela algo desconfortável sobre o olhar europeu do século XIX: a necessidade de fantasiar o outro, de vestir a modelo local com roupas de outro mundo para criar a ilusão de distância e mistério. O orientalismo artístico não retratava o Oriente, construía uma imagem de consumo para o público ocidental.
O que sobrevive à época, porém, é o rosto. Amerling não pintou um tipo, pintou uma pessoa específica, com um olhar específico, que devolve o nosso com calma e autonomia. Ela está no papel de fantasia que lhe pediram, mas olha para nós como se soubesse exatamente o que está acontecendo.
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Olhe com calma.
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