Guia · Pós-impressionismo · 1853-1890

Van Gogh obras: as telas essenciais de uma carreira curta e febril

Yale University Art Gallery · 1888 · Leitura de 10 minutos

O Café da Noite, de Vincent van Gogh, 1888

Van Gogh pintou por apenas dez anos. Nesse tempo curto produziu cerca de novecentas telas e mais de mil desenhos, num ritmo que beira o impossível: houve semanas em que terminou um quadro por dia. Vendeu pouco enquanto vivia, morreu aos 37 anos convencido de ter fracassado, e hoje as obras dele estão entre as mais reproduzidas do planeta. Uma delas é o café escuro de Arles que abre esta página.

A tela da imagem é O Café da Noite, pintada em setembro de 1888 e guardada na Yale University Art Gallery, em New Haven. Ela funciona como porta de entrada para o conjunto, porque carrega as marcas que se repetem em quase tudo que ele fez: cor levada ao extremo por decisão, tinta grossa em relevo e a emoção posta na superfície.

Este guia percorre as telas essenciais, explica o método por trás delas e separa a obra da lenda que se colou nela depois.

O que você vê no Café da Noite

Paredes vermelho-sangue, teto verde, quatro lâmpadas a gás cercadas de halos amarelos, uma mesa de bilhar vazia no centro e um chão ocre que se inclina na direção de quem olha. Nas mesas do fundo, algumas figuras dormem sem rosto visível. A perspectiva é forçada por decisão: as paredes convergem rápido demais, as mesas ficam em ângulos que não combinam entre si, e nenhuma linha do cômodo é paralela à vizinha. O desconforto do olho é o assunto do quadro.

Van Gogh passou três noites seguidas dentro do Café de la Gare, na Place Lamartine, dormindo de dia e trabalhando de madrugada a café preto. O proprietário, Joseph Ginoux, tolerava o experimento porque o pintor pagava hospedagem e comida com quadros.

A escolha das cores veio de estudo, não de impulso. Ele lia Charles Blanc e conhecia os trabalhos do químico Eugène Chevreul sobre contraste simultâneo, segundo os quais duas cores complementares postas lado a lado vibram na retina. O vermelho contra o verde do Café da Noite aplica a teoria com objetivo psicológico, e não decorativo.

"Eu tentei expressar com vermelho e verde as terríveis paixões humanas. O salão é vermelho-sangue e amarelo-pálido, com uma mesa de bilhar verde no meio. As quatro lâmpadas amarelo-limão dão um brilho de laranja e verde." Vincent van Gogh, carta ao irmão Theo, 8 de setembro de 1888.

A cor, ali, existe para fazer sentir, não para descrever.

O pintor que refazia o próprio quadro

Quem olha de longe imagina um homem pintando de rompante, uma tela nova a cada arrebatamento. O arquivo mostra outra rotina: séries, repetições e variações do mesmo motivo.

Os Girassóis são o caso mais claro. Em cerca de uma semana de agosto de 1888 saíram quatro telas de vaso, com três, cinco, doze e quinze flores, cada uma mais cheia que a anterior. Em janeiro de 1889 ele repetiu as duas maiores, porque queria manter as originais em casa e ainda assim atender a Gauguin, que havia pedido uma delas de presente.

O Quarto em Arles existe em três versões. A primeira, de outubro de 1888, está em Amsterdã. As outras duas foram refeitas de memória no ano seguinte, dentro do asilo de Saint-Rémy: uma no mesmo tamanho, hoje em Chicago, e uma menor, presente para a mãe e para a irmã, hoje em Paris.

La Berceuse, o retrato de Augustine Roulin embalando um berço com uma corda, ganhou cinco versões entre o fim de 1888 e o início de 1889. Ele chegou a planejar um tríptico com a figura ao centro e um vaso de girassóis de cada lado, pensado como consolo para marinheiros. Nunca viu o conjunto montado.

Repetir não era falta de ideia: era o jeito de fixar um motivo e testar variação de cor sem esvaziar as paredes do ateliê.

Linha do tempo de Van Gogh

  1. 1853Vincent van Gogh nasce em Groot-Zundert, no sul da Holanda, filho de um pastor protestante.
  2. 1880Depois de fracassar como negociante de arte e como pregador, decide aos 27 anos ser pintor.
  3. 1885Em Nuenen, pinta Os Comedores de Batatas, a obra maior da fase escura e terrosa.
  4. Março de 1886Muda-se para Paris, mora com o irmão Theo, conhece os impressionistas e passa a colecionar gravuras japonesas. A paleta clareia em poucos meses.
  5. Fevereiro de 1888Vai para Arles, no sul da França, atrás de luz forte e aluguel barato, e começa o período mais produtivo da vida.
  6. Agosto de 1888Pinta a série dos Girassóis para decorar o quarto que preparava para Paul Gauguin.
  7. Setembro de 1888Pinta O Café da Noite em três madrugadas seguidas.
  8. Outubro de 1888Gauguin chega à Casa Amarela. Nasce O Quarto em Arles.
  9. 23 de dezembro de 1888Depois de nove semanas de convivência tensa, corta parte da própria orelha esquerda. Gauguin parte para Paris.
  10. Maio de 1889Interna-se por vontade própria no asilo de Saint-Rémy, onde pinta cerca de cento e cinquenta telas em um ano.
  11. Maio de 1890Instala-se em Auvers-sur-Oise, perto de Paris, sob acompanhamento do doutor Paul Gachet.
  12. 29 de julho de 1890Morre aos 37 anos, dois dias depois de um ferimento de bala no peito.
  13. 1914Johanna van Gogh-Bonger, viúva de Theo, publica a correspondência entre os irmãos e consolida a fama póstuma do pintor.

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O que faz uma tela ser um Van Gogh

A primeira marca é o par complementar. Vermelho contra verde, amarelo contra azul, laranja contra violeta: ele encostava as cores opostas uma na outra para gerar tensão, e descrevia ao irmão qual par pretendia usar antes de começar.

A segunda marca é o impasto, a tinta aplicada espessa, quase esculpida, deixada em relevo. Ele pintava molhado sobre molhado, sem esperar secagem, e o volume da pasta ficou registrado na superfície.

A terceira marca é a pincelada direcional. Cada campo da tela tem o próprio sentido de traço: o céu se enrola, o trigo se deita, o casaco desce na diagonal.

A quarta marca é química, e envelhece. Ele usava pigmentos industriais recentes, entre eles o amarelo de cromo, que gerações anteriores não tinham no estojo. Estudos de conservação mostram que parte desses amarelos escureceu com a exposição à luz, e que o vermelho misturado ao azul das paredes do Quarto em Arles desbotou até o cômodo virar quase azul puro. As telas penduradas hoje são mais frias do que as que saíram do cavalete.

As telas essenciais, uma a uma

Os Comedores de Batatas, de abril de 1885, é o marco do período holandês. Cinco camponeses partilham batatas sob um lampião, com mãos grandes demais para os braços. A desproporção é escolha: ele escreveu que ficaria desesperado se as figuras saíssem corretas, porque camponês com anatomia de academia deixa de ser camponês.

Os Girassóis são a assinatura. Amarelo sobre amarelo, sem janela e sem sombra projetada, com botão, flor aberta e flor seca dividindo o mesmo vaso. Numa carta ele reivindicou o motivo como território próprio.

O Quarto em Arles mostra o dormitório da Casa Amarela em placas de cor chapada, sem meio-tom, à maneira das gravuras japonesas que forravam as paredes do ateliê. O objetivo, escrito em carta a Gauguin, era descansar a imaginação de quem olha.

Os retratos da família Roulin formam o núcleo humano da obra. O carteiro Joseph Roulin, de barba espessa e uniforme azul, a esposa Augustine e os filhos aparecem dezenas de vezes, e representam a amizade mais estável do período de Arles.

Os autorretratos passam de trinta. Sem dinheiro para pagar modelos, ele virou o próprio modelo. No Autorretrato com a Orelha Enfaixada, de janeiro de 1889, o curativo aparece do lado direito, embora a orelha ferida fosse a esquerda: quem pinta diante de um espelho pinta a cena invertida.

Os campos de trigo atravessam a carreira inteira, da Holanda a Auvers. O Semeador ao Pôr do Sol, de 1888, homenageia Jean-François Millet com um disco solar enorme atrás da figura. O Campo de Trigo com Corvos, de julho de 1890, tem cerca de cinquenta por cento e três centímetros, no formato panorâmico das últimas semanas.

As cartas a Theo, a fonte que datou a obra

Sobreviveram mais de oitocentas cartas escritas por Van Gogh, cerca de seiscentas e cinquenta delas dirigidas ao irmão Theo, marchand em Paris, que lhe mandava dinheiro e tinta e recebia telas em troca.

A correspondência é rara entre pintores: ele descrevia o quadro em andamento, listava as cores que pretendia usar e às vezes desenhava a composição na margem. Boa parte da datação das telas vem daí, e não de suposição de estilo. O Museu Van Gogh publicou a edição crítica completa em 2009, com as cartas numeradas e abertas à consulta pública.

Três erros que a lenda plantou

O primeiro é o mito do gênio louco pintando em delírio. As crises interrompiam o trabalho, em vez de produzi-lo: durante os episódios ele não conseguia pintar, e voltava ao cavalete nos intervalos de lucidez. A pincelada é firme, e o plano de cor estava escrito em carta antes da primeira camada.

O segundo é a lenda de que ele vendeu um único quadro em vida. A venda mais citada é A Vinha Vermelha, comprada pela pintora belga Anna Boch em 1890, e a pesquisa moderna aponta outras transações e trocas ao longo da carreira, incluindo obras entregues como pagamento de hospedagem. Vendeu pouquíssimo, e o número exato segue em discussão.

O terceiro é tratar o Campo de Trigo com Corvos como quadro final. A tela é de meados de julho de 1890, e ele continuou trabalhando todos os dias depois dela. O Museu Van Gogh corrige a atribuição em texto de parede, e a pesquisa aponta Raízes de Árvore como candidata mais provável ao último trabalho. As circunstâncias da morte também seguem em disputa, com a hipótese tradicional do suicídio convivendo com a de um disparo acidental.

O exercício das três distâncias

Diante de um Van Gogh original, o quadro muda conforme a distância. Vale percorrer as três.

A trinta centímetros, observe a superfície de lado, com a luz raspando. O relevo do impasto aparece, as cristas de tinta projetam sombra real e dá para ver onde ele passou por cima do que ainda estava molhado.

A dois passos, siga a direção das pinceladas em vez da cor. É a mudança de sentido do traço que separa o céu do campo, o casaco da parede, o rosto do fundo.

Do outro lado da sala, procure o par complementar dominante e o ponto onde as duas cores se tocam. Ali a tela vibra. Depois volte e procure a assinatura: quando existe, vem só como Vincent, sem sobrenome, porque ele achava que os franceses não pronunciariam van Gogh.

Perguntas frequentes

Quantas obras Van Gogh pintou?

Cerca de novecentas pinturas e mais de mil desenhos, quase tudo em dez anos de carreira. Nos períodos mais intensos, em Arles e em Auvers, ele chegou a terminar uma tela por dia. Só nos setenta dias finais em Auvers saíram por volta de setenta e cinco telas.

Quais são as obras mais famosas de Van Gogh?

A Noite Estrelada, os Girassóis, O Quarto em Arles, Os Comedores de Batatas, o Campo de Trigo com Corvos, os autorretratos e O Café da Noite, guardado na Universidade Yale. Vários desses títulos existem em mais de uma versão pintada pelo próprio artista.

Van Gogh vendeu quadros em vida?

Vendeu pouquíssimo. A venda mais documentada é A Vinha Vermelha, adquirida pela pintora belga Anna Boch em 1890. A ideia de que teria sido a única tela negociada segue contestada por pesquisadores, que apontam outras transações e trocas.

Qual foi o último quadro de Van Gogh?

Não foi o Campo de Trigo com Corvos, apesar da lenda alimentada por romance e cinema. A tela é de meados de julho de 1890, e ele pintou todos os dias depois dela. A pesquisa recente aponta Raízes de Árvore como candidata mais provável.

Por que Van Gogh cortou a orelha?

Em 23 de dezembro de 1888, depois de nove semanas de convivência tensa com Paul Gauguin na Casa Amarela, em Arles, ele feriu a própria orelha esquerda com uma navalha durante uma crise. Um desenho do médico Félix Rey, divulgado em 2016, indicou que o corte levou quase a orelha inteira.

Onde estão as obras de Van Gogh hoje?

O maior acervo está no Museu Van Gogh, em Amsterdã, formado a partir da coleção guardada pela família. Outras telas centrais estão no Museu Kröller-Müller, em Otterlo, no Musée d'Orsay, em Paris, no MoMA, em Nova York, na Universidade Yale e no Instituto de Arte de Chicago.

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